A dificuldade de acesso à arte em Brasília e a tecnologia como solução

Entrevistados falam sobre aplicativos como Google Arts & Culture e seus impactos para o conhecimento sobre a arte

Por Gabriela Fonseca

Detalhe do quadro do artista Juarez Venâncio.

Com o constante crescimento da tecnologia como ferramenta de pesquisa, as pessoas acabam encontrando novos caminhos por meio do virtual. Dentro disso, a arte também utiliza plataformas online, que conseguem alcançar um público maior e democratizar o conhecimento sobre cultura. Contudo, será que a internet traz apenas benefícios para a arte?
Para a servidora pública e graduanda em Teoria, Crítica e História da Arte da Universidade de Brasília, Carla Croix há ainda dificuldade, por exemplo, de se conhecer os artistas locais por meio da internet, já que o Google Arts reúne obras e locais já consagrados. “Tem muito artista que nunca terá uma obra dentro de uma instituição, e o trabalho dele é tanto arte quanto qualquer artista famoso que tenha conseguido fazer parte do acervo de qualquer grande museu do mundo”, afirma Carla.

Dificuldade de acesso

A pesquisa realizada com 22 moradores de Brasília mostra que 39,1% dos entrevistados visitam exposições de arte apenas uma vez por ano, enquanto os outros 34,8% nunca vão a exposições. “Se o transporte público de Brasília permitisse uma mobilidade melhor, eu tenho certeza de que o acesso à cultura, à arte, a exposições, seria muito maior também.”, acrescenta Croix.
Em Brasília, a visitação a museus e galerias fica restrita, muitas vezes, a locais com difícil acesso para quem depende de transporte público e, claro, sofre com a segurança pública, limitando ainda mais o tempo livre com a arte. É o que revelam 60,9% dos entrevistados, que dizem não haver eventos culturais em seus bairros.
Croix conta sobre a visita que fez à Casa Niemeyer, localizada no Park Way, onde o acesso por meio de transporte público é difícil, principalmente à noite. “Talvez eu até conseguiria ir de ônibus, mas a logística é tão difícil, tão complicada, e o evento era à noite, que eu tive que ir de carro”, lembra Carla. Esta situação mostra não apenas a preocupação com a mobilidade, mas até mesmo com a segurança local ao se deslocar durante a noite.

Obra de Antônio Poteiro exposta no Atelier Café Márcio Rapello

Diante disso, o artista plástico e galerista, Márcio Rapello, fala sobre a educação como solução para facilitar o acesso da população à arte, aplicando conteúdos mais fortes nas escolas para estimular as pessoas a terem mais contato com a cultura. “O que eu vejo no Brasil é realmente a falta de educação nesse sentido, porque as pessoas não valorizam a gente, não tem essa educação tradicionalmente ensinada, então, só a elite que tem essa visão, e pouca parte do restante da população tem acesso a esse tipo de educação”, explica Rapello.

Impactos da tecnologia sobre a arte

Segundo os entrevistados da pesquisa, a utilização de aplicativos como o Google Arts & Culture é benéfica, “mas não substitui o ao vivo” e “pode acomodar as pessoas a não saírem para museus e eventos culturais”. Para Croix e Rapello, o aplicativo contorna as dificuldades da população de ter acesso à arte, mas ainda há a importância de buscar conhecer as obras presencialmente e, sobretudo, porque há uma certa perda com o contato se este for feito apenas virtualmente. “Eu acredito que, hoje, nós já vivemos muito conectados, e estar presencialmente no museu é uma experiência de conexão direta, não intermediada pela tecnologia”, esclarece Croix.
Rapello explica a necessidade do conteúdo artístico, muitas vezes, ser visto pessoalmente, é preciso tocar, dependendo da obra, ou estar no ambiente, no caso de instalações. “Então, eu acho que realmente peca-se quando a gente deixa de apreciar ao vivo uma arte”, finaliza ele.
Porém, ainda assim a tecnologia é vista como uma ferramenta de conexão entre os artistas, uma vez que, por meio dela a arte se torna mais acessível.

Benefícios no dia a dia

Inseridos em um mundo globalizado e carregado de informações a todo momento, Rapello fala de um dos benefícios da internet para a arte. “As pessoas têm a oportunidade de ter um acesso muito fácil a conteúdos produzidos recentemente. Porque se a gente não tivesse esse recurso, as pessoas iriam demorar muito mais para ter acesso a conteúdos de todos os lugares do mundo, que podem chegar rapidamente ao nosso conhecimento, à nossa apreciação”, diz. Dessa forma, assim como outros conteúdos, o conhecimento artístico chega rapidamente às pessoas através de sites e aplicativos.
Já Croix ressalta outro ponto positivo sobre o Google Arts, quando o usuário disponibiliza sua localização, como em uma viagem, por exemplo, e o aplicativo o orienta e sugere lugares próximos para visitar. “Você se transporta de onde estiver, na sua casa, de qualquer lugar, para um museu”, completa a entrevistada.

Arte urbana como solução

Dentro da busca pela democratização da arte, surge a arte urbana para contornar as restrições de museus e galerias, uma vez que, em sua maioria, os grafites e as performances se encontram na maioria dos bairros de Brasília e se integram ao cotidiano das pessoas. Segundo Croix, “não há nenhuma forma de falar de arte democrática sem falar de arte urbana, de grafite nos espaços públicos, onde a pessoa possa ver. E essa é uma tendência de valorização muito grande, a arte está no espaço público que é onde o povo está e é o onde ela deve ser vista”.

O Google Arts & Culture foi desenvolvido pelo Google, em colaboração com diversos museus pelo mundo. Gratuito e disponível para Android e IOS, o aplicativo também, a partir de uma selfie, consegue encontrar personagens de obras de arte que se pareçam com o usuário. Além de ampliar o conhecimento sobre diversos artistas, a função se tornou também uma forma de entretenimento entre as pessoas.

Comentários

Postagens mais visitadas